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O primeiro debate eleitoral pelo governo da Bahia, promovido pela Band na noite deste domingo (9), cumpriu a expectativa de tensão que cercava o encontro entre o governador Jerônimo Rodrigues (PT), que busca a reeleição, e o ex-prefeito de Salvador ACM Neto (União Brasil), principal nome da oposição. Com a presença também de Ronaldo Mansur (PSOL), o programa marcou o início oficial da disputa direta entre os dois candidatos que hoje polarizam as pesquisas eleitorais no estado, apelidados nos bastidores das campanhas de "Neto" e "Jero". Segurança pública e saúde dominaram os momentos de maior atrito, mas o debate também passou por violência contra a mulher, infraestrutura rodoviária e a relação de cada candidato com a política nacional.
Violência contra a mulher abre o debate em clima de consenso
O primeiro bloco da noite tratou do combate à violência contra as mulheres e, diferentemente do restante do programa, foi marcado por um raro momento de consenso entre os três candidatos. Jerônimo Rodrigues defendeu que o combate ao machismo precisa começar ainda na educação infantil, com políticas voltadas para os 417 municípios baianos. ACM Neto, por sua vez, propôs auxílio financeiro por até 24 meses para vítimas de violência doméstica, além de qualificação profissional, punição mais rígida e monitoramento de agressores. Já Ronaldo Mansur cobrou a ampliação das Delegacias Especializadas de Atendimento à Mulher (DEAMs) para funcionamento 24 horas, embora tenha citado um número de delegacias especializadas que contraria dados oficiais do estado, já que a legislação federal determina o funcionamento ininterrupto dessas unidades.
Apesar de os três candidatos concordarem sobre a necessidade de ampliar investimentos e o envolvimento de homens no enfrentamento ao problema, o tom consensual não duraria muito no restante da noite.
O embate mais tenso: a cratera na BR-324
O momento de maior tensão do debate aconteceu quando ACM Neto cobrou explicações de Jerônimo Rodrigues sobre uma cratera na BR-324, rodovia federal que corta a Bahia e é uma das mais movimentadas do estado. O ex-prefeito de Salvador acusou o governador de ter mentido ao dizer anteriormente que o buraco já havia sido tapado, quando na prática o problema seguia sem solução.
Em tom direto, ACM Neto questionou se Jerônimo estava mal informado pela própria equipe ou se havia mentido deliberadamente sobre a situação da rodovia, dizendo que o próprio governador havia sido desmentido por um motorista baiano que usa a via diariamente. A resposta de Jerônimo veio em tom mais elevado: o governador acusou ACM Neto de ter uma postura recorrente de tentar desqualificar adversários e relembrou uma declaração antiga do ex-prefeito, na qual ele teria manifestado intenção de humilhá-lo publicamente. Mesmo em tom mais firme, Jerônimo evitou revidar chamando o adversário de mentiroso, afirmando que havia ido ao debate para discutir propostas, não para trocar acusações pessoais.
Segurança pública: o principal ponto fraco do governo estadual
Assim como já era esperado por analistas políticos antes mesmo do debate, a segurança pública se consolidou como um dos temas mais espinhosos da noite, sendo tratada por parte da imprensa como o principal calcanhar de aquiles da atual gestão estadual. ACM Neto usou o espaço para citar as filas nos hospitais da Bahia, mencionando o número de pessoas que teriam morrido à espera de atendimento no sistema de saúde estadual, além de apontar números considerados desfavoráveis sobre segurança pública no governo petista. O candidato do União Brasil assumiu o compromisso público de resolver os dois problemas caso seja eleito, prometendo que os baianos "vão voltar a ter saúde de qualidade e segurança".
Jerônimo, por sua vez, questionou ACM Neto sobre a regulação do acesso a consultas e procedimentos no Sistema Único de Saúde (SUS) estadual, tentando colocar o adversário na defensiva sobre o tema. Em resposta à cobrança sobre saúde, o governador devolveu perguntando quantos hospitais o grupo político de ACM Neto teria construído durante os cerca de vinte anos em que comandou politicamente o estado, numa clara tentativa de associar o adversário à gestão anterior, ligada à família Magalhães, historicamente rival do PT na Bahia.
Jerônimo tenta colar Bolsonaro e Canella em ACM Neto
Uma das estratégias mais evidentes do governador ao longo da noite foi tentar associar ACM Neto ao ex-presidente Jair Bolsonaro e à ala mais à direita do espectro político nacional, sendo ajudado nessa investida pelo candidato do PSOL, Ronaldo Mansur, que chegou a questionar diretamente se ACM Neto era contra o presidente Lula. O ex-prefeito de Salvador reforçou, no entanto, que seu candidato à Presidência da República é o senador e colega de partido Ronaldo Caiado, buscando se descolar da associação direta com Bolsonaro.
O momento mais polêmico dessa linha de ataque veio quando Jerônimo mencionou o nome do ex-prefeito de Belford Roxo, Márcio Canella, atualmente preso e alvo da Operação Unha e Carne, que investiga milícias no Rio de Janeiro. Canella foi preso em flagrante durante a sexta fase da operação, mas posteriormente solto por decisão do Supremo Tribunal Federal, sob uso de tornozeleira eletrônica. Segundo Jerônimo, o político fluminense teria participado da elaboração do plano de governo apresentado pela oposição baiana, numa tentativa de associar a candidatura de ACM Neto a um nome hoje sob investigação por suposta ligação com milícias.
Vinte anos de Magalhães versus quatro anos de PT
Um dos eixos centrais da estratégia de ACM Neto durante o debate foi apontar problemas concretos da atual gestão estadual, cobrando resultados de Jerônimo Rodrigues em áreas sensíveis como saúde e segurança, além de criticar atrasos em obras estruturantes do estado, como a ponte que ligará Salvador a Itaparica, projeto historicamente aguardado pela população baiana. Já Jerônimo optou por resgatar o passado político do adversário, lembrando repetidamente que o grupo político de ACM Neto comandou a Bahia por cerca de duas décadas antes da chegada do PT ao Palácio de Ondina, numa tentativa de transferir para o rival parte da responsabilidade histórica pelos problemas estruturais do estado.
Um debate sem vencedor claro, segundo analistas
Ao final da transmissão, parte da cobertura política especializada avaliou o confronto entre os dois principais candidatos como tecnicamente equilibrado, sem um vencedor evidente. Enquanto ACM Neto conseguiu manter o foco nas falhas da gestão atual, especialmente em segurança pública e saúde, Jerônimo Rodrigues buscou desviar parte do desgaste associando o adversário a figuras e discursos nacionalmente polarizadores, como Bolsonaro e o escândalo envolvendo Canella. Ronaldo Mansur, do PSOL, tentou se posicionar como uma terceira via, chegando a defender em alguns momentos que os dois principais adversários possuem propostas semelhantes entre si, embora tenha tido menos tempo de destaque diante da polarização entre os dois nomes favoritos nas pesquisas.
O que vem pela frente na corrida eleitoral baiana
O debate promovido pela Band Bahia neste domingo pode ter sido o único encontro direto entre ACM Neto e Jerônimo Rodrigues antes do primeiro turno das eleições, marcado para outubro. A emissora já garantiu a realização do primeiro debate oficial entre os candidatos que avançarem para o segundo turno, caso ele ocorra, previsto para acontecer entre os dias 7 e 18 de outubro. Já a TV Bahia programou um novo encontro entre os candidatos para o dia 29 de setembro, exibido após a novela das nove, mas até o momento nem ACM Neto nem Jerônimo confirmaram presença, preferindo aguardar o desenrolar da campanha antes de bater o martelo.
Com pesquisas indicando um cenário de forte polarização entre os dois nomes, a tendência é que os próximos meses de campanha sigam no mesmo tom de embate direto observado neste primeiro confronto televisivo, com cada lado explorando as fragilidades do adversário: de um lado, os problemas concretos da atual gestão estadual; do outro, o histórico do grupo político que comandou a Bahia por duas décadas antes da chegada do PT ao poder.
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