Pix bate recorde e movimenta R$ 35 trilhões em 2025; BC já planeja versão internacional do sistema
O Pix consolidou de vez sua posição como o principal meio de pagamento do Brasil. Segundo dados divulgados nesta segunda-feira (10) pelo Banco Central, o sistema de pagamentos instantâneos movimentou R$ 35,36 trilhões ao longo de 2025, novo recorde histórico desde sua criação, em 2020. O balanço faz parte da segunda edição do Relatório de Gestão do Pix, documento que reúne os principais números do período entre 2023 e 2025 e também traça a agenda de evolução da ferramenta para os próximos anos, incluindo planos ambiciosos como a criação de uma versão internacional do sistema.
Os números de um sistema que já domina o dia a dia do brasileiro
O crescimento do Pix em 2025 impressiona tanto em volume financeiro quanto em quantidade de transações. Ao todo, foram quase 80 bilhões de operações realizadas ao longo do ano, um avanço de 25,7% na comparação com 2024. Já o volume financeiro movimentado cresceu ainda mais, 33,8%, ultrapassando a marca de R$ 35 trilhões, praticamente equivalente a mais de dez vezes o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil em um único ano.
Apesar dos números bilionários, a maior parte das transações realizadas pelos brasileiros envolve valores baixos do dia a dia. O valor médio de uma transação Pix em 2025 ficou em torno de R$ 440, mas a mediana, que representa melhor o comportamento típico da maioria dos usuários, foi de apenas R$ 36. Entre pessoas físicas, o valor médio das transações foi de R$ 273, com mediana de R$ 50, enquanto nos pagamentos destinados a empresas a média ficou em R$ 115 e a mediana em R$ 25. No total, 71% de todas as transações realizadas em 2025 foram de até R$ 100, reforçando o papel do Pix como ferramenta do cotidiano, usada tanto para pagar uma feira quanto para dividir a conta do restaurante.
Dezembro, tradicionalmente o mês de maior movimentação por causa das festas de fim de ano, também trouxe novos recordes: foram R$ 3,7 trilhões movimentados em 7,8 bilhões de transações. No dia 19 de dezembro, o sistema bateu o recorde de maior volume financeiro em um único dia, com R$ 193,47 bilhões processados em 24 horas. Já o maior número de transações em um único dia aconteceu em 5 de dezembro, quando o Pix processou 313,3 milhões de operações.
Quase toda a população adulta já usa o sistema
Outro dado que mostra a dimensão alcançada pelo Pix é o alcance entre a população. Segundo o Banco Central, cerca de 148 milhões de pessoas físicas realizaram ou receberam ao menos uma transação pelo sistema em 2025, o equivalente a 86% da população adulta brasileira, um crescimento de 5% em relação ao ano anterior. Do lado das empresas, o sistema já conta com 12,8 milhões de usuários pessoa jurídica, alta de 15,8% sobre 2024, representando mais da metade das empresas ativas no país. Ao final do ano, o Brasil já tinha mais de 920 milhões de chaves Pix cadastradas.
De ferramenta entre amigos a motor do varejo brasileiro
Um dos dados mais reveladores do relatório mostra como mudou o próprio uso do Pix desde seu lançamento. Em 2020, primeiro ano de funcionamento do sistema, 85% das transações eram feitas entre pessoas físicas, uso típico de quem dividia uma conta ou fazia um empréstimo informal para um amigo. Em 2025, essa fatia caiu para 44%, enquanto os pagamentos de pessoas físicas para empresas, o chamado P2B, saltaram para 43% do total, um crescimento de 37 pontos percentuais em relação a 2020.
O avanço mostra a consolidação do Pix como ferramenta central do varejo brasileiro, usado cada vez mais para pagar compras no comércio, substituindo cartões de débito e dinheiro em espécie. Já quando o critério é o valor movimentado, e não a quantidade de transações, as operações entre empresas, conhecidas como B2B, já representam a maior fatia, com 47% do total, superando as transações entre pessoas físicas desde 2023. Segundo o próprio Banco Central, a mudança comprova que o Pix deixou de ser apenas um meio de transferência entre pessoas e passou a funcionar como peça central do funcionamento do varejo e das relações comerciais no país.
Fraudes ainda preocupam, e BC prepara pacote de medidas
O forte crescimento do sistema também trouxe um efeito colateral inevitável: o aumento das tentativas de fraude. Somente em 2024, o Banco Central contabilizou R$ 6,5 bilhões em perdas causadas por golpes envolvendo o Pix, um salto de 80% em relação ao ano anterior. O período também registrou o maior ataque hacker já sofrido por instituições ligadas ao sistema no país, com desvio estimado em R$ 800 milhões.
Diante desse cenário, o relatório detalha um pacote de oito medidas em estudo para reforçar a segurança do sistema. Entre elas estão a criação de um indicador de probabilidade de fraude em tempo real, capaz de sinalizar transações suspeitas antes mesmo de serem concluídas, além do estabelecimento de critérios objetivos mínimos para identificação de operações atípicas, que deverão ser seguidos por todas as instituições financeiras participantes do sistema. O documento também prevê o uso intensivo de novas tecnologias de análise de dados para identificar padrões de comportamento fraudulento e a criação de novos fluxos para a gestão de chaves Pix, tornando mais difícil a ação de golpistas que se aproveitam de brechas no cadastro.
Chega ao fim a "liberdade" do campo de mensagens
Outro ponto que ganhou destaque no relatório foi a discussão sobre o uso indevido do campo de descrição das transações, aquele espaço originalmente pensado para o pagador registrar informações objetivas sobre o pagamento, mas que, segundo o próprio Banco Central, passou a ser usado por alguns usuários para o envio de mensagens ofensivas, intimidatórias ou até ameaçadoras, muitas vezes associadas a transferências de valores irrisórios, numa espécie de "PIX raivoso" que virou prática comum em brigas e desentendimentos nas redes sociais e no dia a dia.
Diante do problema, o Banco Central já discute, em conjunto com instituições financeiras e representantes da sociedade civil, possíveis medidas para restringir esse tipo de uso indevido da ferramenta. Segundo o próprio órgão, ainda não há uma decisão fechada sobre o formato da restrição, mas a autoridade monetária sinalizou que deve instituir as regras que julgar necessárias assim que o grupo de trabalho concluir as discussões.
O próximo passo: Pix Internacional
Entre todas as novidades anunciadas no relatório, a que mais chamou atenção do mercado financeiro foi o plano de criar uma versão internacional do Pix. Segundo o Banco Central, a instituição já estuda duas frentes técnicas para viabilizar transferências instantâneas entre o Brasil e outros países: acordos bilaterais diretos com autoridades monetárias de nações específicas e a participação em hubs multilaterais de pagamentos instantâneos, que conectam vários países ao mesmo tempo em uma única infraestrutura.
A ideia é que remessas internacionais e compras no exterior possam ser feitas com o mesmo gesto simples que popularizou o Pix dentro do Brasil: a leitura de um QR Code na tela do celular ou do caixa, com conversão automática para a moeda local em poucos segundos. Se colocado em prática, o modelo tem potencial para reduzir significativamente o custo de remessas internacionais, hoje dominadas por bancos e casas de câmbio que cobram tarifas consideradas elevadas pelos usuários, além de facilitar pagamentos para brasileiros que viajam ou compram em plataformas estrangeiras de comércio eletrônico.
O que esperar da próxima fase do Pix
Passados cinco anos desde seu lançamento, o Pix deixou de ser apenas uma inovação tecnológica no sistema financeiro para se tornar parte da rotina de quase toda a população adulta brasileira. Com o volume de transações batendo recorde atrás de recorde, o desafio do Banco Central agora se concentra em equilibrar dois objetivos que caminham juntos: continuar ampliando as funcionalidades do sistema, como a integração internacional e novas modalidades de pagamento, sem perder de vista a segurança de quem usa a ferramenta todos os dias para tarefas simples, como pagar o pãozinho da padaria ou quitar uma conta de luz.
Para o comércio, a expectativa é que a consolidação do Pix como principal meio de pagamento no varejo continue reduzindo custos operacionais em relação a cartões de crédito e débito, enquanto para o consumidor comum a promessa é de mais segurança contra fraudes e, no médio prazo, a possibilidade de usar o mesmo sistema simples e gratuito também em compras e remessas internacionais.
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